sexta-feira, 29 de março de 2013

O CRANÍCOLA



Sentado em uma poltrona vermelha de couro envelhecido, o velho Hélio Ambrósio admira o sol da tardinha com seu brilho alaranjado. “O Sol é imortal!” Pensa o velho de 86 anos admirando com certa devoção o fim de sua exibição naquele dia. Um pensamento de auto-correção logo é ignorado. “Um dia o combustível de hidrogênio no interior do sol irá acabar, e o sol estará perto da morte assim como eu estou... Mas ainda assim ele deve ser imortal”.
Essas indagações preenchem e ocupam a mente do idoso que ainda sentado na poltrona percebe que a luz do sol já se foi dando lugar à noite, uma onda de melancolia preenche seu ânimo, ele está plenamente consciente de que pode ter sido a última vez em que presencia o por do Sol, o que dá ao velho um sentimento de valorização considerável ao mesmo. “Queria vê-lo mais uma vez amanhã”. Então ele procura afastar esses pensamentos perturbadores focando-se na beleza do início da noite, o que logo percebe ser uma idéia não muito feliz, automaticamente ele é lançado à lembranças de seus primeiros anos de vida, quando aos inícios de noite, semelhante àquele, com um sopro quente do vento que ainda parece não perceber que o dia terminou, ele então saía para brincar com outras crianças, aquelas brincadeiras noturnas, naquele chão de barro socado e bordado com um gramado rasteiro, até que a hora avançasse e sua mãe o chamasse para definitivamente ir para casa. Não é uma boa idéia, pois Ambrósio sabe que sua vida hoje é completamente diferente, seu corpo é frágil, sua pele é enrugada, está totalmente diferente de quando ainda era criança.
Antes que estes pensamentos venham a mudar seu humor para um perfil irritadiço, o velho expulsa bruscamente tais pensamentos da mente, pensa em levantar-se, logo desiste da idéia ao pensar no trabalho e na falta de disposição, seu olhar percorre o seu quarto, quando por fim foca a visão em um objeto que tem um significado tão profundo quanto os livros que o velho homem várias vezes devorara, e de igual forma lhe transmitido ensinamentos singular. O objeto é um crânio humano.
Ainda quando mancebo, um jovem adulto na realidade, Ambrósio tornou-se sensível aos questionamentos sobre o significado e o propósito da vida, questionamentos que o fizeram buscar conhecimento, nas religiões, na ciência, nos sentimentos... Tudo o que conseguiu foi ampliar a dimensão de suas questões, o que era profundamente perturbador.
Curiosamente, sempre nos intervalos de sono, quando estava prestes a dormir ou acordar, ou mesmo quando um sono era interrompido, Ambrósio era assaltado por pensamentos em relação à chegada da morte, e embora ainda jovem, era extremamente sensibilizadora a realidade de que não viveria para sempre, um dia, assim como o primeiro emprego, a primeira noite de amor, o nascimento de um filho a morte também iria chegar, inevitavelmente.
Aos poucos este tipo de pensamento fora moldando o temperamento do então jovem Ambrósio, ainda mais quando ele relacionava esses pensamentos a outras pessoas como amigos e familiares, principalmente seus pais com uma idade relativamente avançada, ou então com sua namorada. Caía-lhe em seus ombros um sentimento de incapacidade, pois se pudesse faria com que todos que amasse fossem imortais, estes tipos de conjecturas transformaram Ambrósio em uma pessoa mais amorosa, ele passou a valorizar mais os seus próximos, fazendo-o chegar à conclusão de que não deveria afastar de si esses pensamentos, para que sempre se lembrasse da importância de todas as pessoas que amava, de que ele mesmo um dia, com toda a certeza, cessaria de respirar.
Para manter esta consciência mortal, Ambrósio decidiu comprar um crânio humano, este teria a função de remetê-lo a estes pensamentos, lembrá-lo da morte, e tal era o efeito que o orgulho, raiva, rancor e a indiferença, foram gradualmente desfragmentando-se do caráter de Ambrósio até minguar.
As pessoas próximas a ele achavam terrivelmente estranho o apego de Ambrósio ao crânio. Recebia críticas, chacotas, até mesmo acusações de envolvimento com magia negra e paganismo por parte dos seus. Sempre que terminava uma leitura, um debate a respeito dos mistérios da vida ou da grandeza do universo, ou após algumas taças de vinho, lá ia Ambrósio pegar o seu crânio, aconchegá-lo em seu colo e alisá-lo como um bichano. “Ser ou não ser!” E dava-se a contar anedotas, ou fazer perguntas complicadas aos que ali com ele estavam estimulando-os a pensar. Curiosamente, todos se acomodavam ao redor de Ambrósio para admirar-lhe a amplitude de seu conhecimento e a capacidade de transmitir a força do que era questionar o que somos e o motivo de estarmos aqui, e para onde iríamos, e ele o fazia de forma suave e poética, aceitar a limitação do saber era triste, mas Ambrósio os ensinava a aceitar esta realidade de bom grado, não importa quem fossem, se pai, mãe, irmãos, namorada, amigos... Todos aprendiam com Ambrósio.
Não tardou para que Ambrósio recebesse o apelido de Cranícola, apelido que Ambrósio aceitou sem dar muita importância, na realidade aceitara como demonstração de carinho.
Mesmo toda esta aparente estabilidade não privava Ambrósio de seus sentimentos em respeito à morte, compreendeu que não se tratava de medo, talvez uma devoção, à vida primeiramente e o que ela lhe ofereceu, seus amigos familiares, filhos...
Aos poucos as pessoas foram partindo, Ambrósio encontrava-se preparado para tais eventos, as lágrimas a cada despedida nada tinha a ver com inconformação, mas estavam vinculadas ao amor e ao valor que aprendera a dar a vida.
Hoje, após inúmeras despedidas, inúmeras lágrimas, frente a uma vida que o faz ter a sensação de dever cumprido, depara-se com a bem aproximada morte, que ora lhe parece convidativa, ora lhe parece assustadora, e sempre o remetendo a lembranças de uma vida inteira.
O pensamento de ser os últimos instantes de sua vida não são inéditos, deveras, com sua idade, Ambrósio, consciente da possibilidade de morrer quase não dorme, acredita que não é o medo da morte em si, mas do desconhecido. “existe ou não vida após a morte?” O desconhecido amedronta a todos e nem é necessário raciocinar para amedrontar-se frente ao que não se conhece. Um sentimento de culpa o preenche. “Talvez eu não acorde amanhã, deveria olhar mais atentamente para o Sol”. Sabe que na noite passada, e na anterior, na semana passada, e no mês passado... O pensamento foi o mesmo, contudo o velho contemplou o Sol mais uma vez, isso quase o tranquiliza, ele olha para o seu velho crânio na estante. “Eu sou assim!” Mal percebe que a enfermeira que trabalha supervisionando-o o chama para jantar. Após o jantar o homem lê um trecho de um livro, o sono chega, é hora de dormir. O velho Cranícola dorme.
Em meio à uma luz forte e envolvente Ambrósio se questiona se é um sonho, se está vivo, se está morto, se seu cérebro está sendo inundado por reações químicas decorrente da morte...
O dia seguinte é um dia triste. Corre pelo país a notícia da morte de um homem esplêndido, admirado por sua nação, seus livros o tornam imortal. Seu crânio de estimação fica para um de seus filhos, no velório apenas resta a expressão sem vida do velho Ambrósio, o Cranícola. Todas as suas idéias a respeito do convívio, tudo que aprendeu e tudo que estudou, agora são apenas lágrimas de quem um dia também passará por tal transição. Resta para os viventes, aprenderem que a vida é passageira, nem que seja necessária a estimação de um crânio humano.
Em meio a toda aquela luz o homem sente paz. Esforça-se para saber se é ilusão ou não, “É delírio ou é o céu?”. Braços fortes e acalentadores o apertam. O Cranícola sente uma paz indescritível.

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